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NOVEMBRO 2011
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TERCEIRO SETOR & SUSTENTABILIDADE

Gestão de Projetos no Terceiro Setor – Indicadores, Capacitação
e Responsabilidade Social

Autor: Rafael Nora Tannus

Comumente se diz que a gestão é baseada em quatro pilares: Planejamento, Organização, Execução e Controle.

Ao começarmos um negócio quase sempre se pensa em um plano de negócios. Esse plano deve contemplar disciplinas fundamentais a todos os tipos de negócio como marketing, finanças, descrição dos produtos e serviços, planejamento estratégico, descrição das fortalezas, fraquezas, oportunidades e ameaças.

Além de todas essas disciplinas, criam-se indicadores de desempenho e de viabilidade como as projeções de venda, VPLs, ROIs, Market Shares, e diferentes sabores de métricas sobre o negócio. Este conjunto leva a formulação de metas bem definidas de curto, médio e longo prazo.

Após iniciarmos o negócio, acompanhamos o desenrolar do plano e “colocamos a banda na rua”. Os projetos, a taxa de produtividade, os produtos entregados, os prazos. Avalia-se o quanto e o como as metas estão sendo alcançadas, avalia-se o planejamento, volta-se a prancheta, repensa-se tudo e a roda vida virtuosa do PDCA começa.

Bem delimitado, bem definido, bem teorizado, claro e transparente. Para as organizações privadas com certeza, mas será que esta mesma lógica se aplica a todas as áreas e atividades da mesma forma? Sem ajustes?

Apenas há pouco tempo começou-se a discutir planejamento no terceiro setor de uma forma estruturada e profissional. Planos de gestão, planos administrativos, até planos de negócios para o terceiro setor foram propostos. Diversos formatos, filosofias, abordagens e metodologias vêm sendo testadas para não apenas aumentar a eficiência dos projetos, mas para garantir a sua viabilidade e perenidade.

Estas dificuldades são, sem dúvida, uma questão mundial. Recentemente o Banco Mundial publicou que as ONGs devem funcionar como empresas sociais que não distribuem lucros entre os cotistas.

Toda organização deve buscar situações que garantam a sua sobrevivência, como estratégias de captação de recurso, fluxo de caixa positivo, rede de relacionamentos e consolidação da sua marca. Em outras palavras, toda ONG deve se planejar e se organizar propriamente. Mas devemos mesmo pensar o planejamento do terceiro setor com a mesma lógica que pensamos o planejamento de uma loja de escapamentos?

Dando forma através de um exemplo, Como analisar a viabilidade de uma ONG que trabalha com crianças deficientes mentais em Carapicuíba?

Podemos estender está dúvida ao universo além das ONGs, atualmente a Responsabilidade Social (RS) está, mal ou bem, presente na maior parte das grandes organizações. Um gestor de projetos de responsabilidade social freqüentemente se pergunta, “Vale a pena a minha empresa investir nesta ONG?”.

Indicadores, Planejamento e Controle

Em todo plano existem métricas, existem quantidades que descrevem, ou sintetizam, os processos. De um lado temos quanto iremos vender, qual é o lucro e a taxa de retorno. De outro, quantas crianças iremos atender, quantos atendimentos por mês, quantos tratamentos podemos oferecer. Por vezes a conta deve ser feita de trás para frente.

Os indicadores são ferramentas com diversos propósitos, monitorar, avaliar, descrever e fornecer subsídio para a tomada de decisão.

A criação de indicadores criteriosos no planejamento é fundamental para o bom desenvolvimento de qualquer projeto, inclusive, para a análise da viabilidade e do funcionamento das organizações.

Estes indicadores não devem apenas ser genéricos, mas devem se ater aos problemas e a realidade de cada organização. Existe uma ampla gama de indicadores disponíveis para empresas que com, algum esforço, podem ser adaptados para o terceiro setor. A “pobreza” de indicadores específicos é uma evidência de quanto este assunto é negligenciado.

Importante ressaltar que a construção dos indicadores é um exercício prévio, idealmente. Eles devem ter um papel norteador das decisões e dos caminhos que estão sendo percorridos, não apenas um papel de descrição do estado da organização.

Os indicadores, criados no planejamento, estruturados na operação e aplicados na execução fornecem um subsídio claro para o controle. São, por excelência, parte do exercício da gestão, nas empresas, e mais ainda no terceiro setor, onde não existem métricas consolidadas.

Desta forma, toda organização do terceiro setor deve em seu planejamento construir e compilar um conjunto de indicadores que possam sintetizar informações que facilitem a tomada de decisão e tenham transparência sobre a operação da organização, dando acesso a todos os seus stakeholders, e dentre estes, os seus patrocinadores.

Ao mesmo tempo, toda empresa que tem um programa sério de Investimento Social Privado (ISP) deve criar um sistema de monitoramento e avaliação dos projetos patrocinados e uma das poucas formas sistemáticas de realizar esta tarefa é através da construção e consolidação de indicadores.

A dinâmica entre a transparência e eficiência do terceiro setor e a responsabilidade das empresas que patrocinam através de programas de ISP e de RS, vem ganhando volume e força na sociedade. Os indicadores são uma forma importante das organizações demonstrarem os impactos positivos e a eficácia dos seus programas de ISP. Ao mesmo tempo em que é a principal forma, não apelativa, das organizações de terceiro setor demonstrar que possuem um planejamento estruturado, que é cadenciado com estratégias de captação de recursos e que permitem o acompanhamento por parte dos seus stakeholders.

Os indicadores acabam tendo não apenas o papel de descrever as relações, ou metrificar os processos, assume na verdade o papel de ferramentas de gestão para o terceiro setor, ferramentas estas que ao transmitir maior transparência para os stakeholders, leva a um maior engajamento e comprometimento de todas as partes.

Este cenário vem ganhando complexidade de forma acelerada. Em 2010 será publicada a ISO 26000 uma norma de responsabilidade social. Esta norma demanda transparência de ambos os lados, tanto das empresas quanto das ONGS, e sugere formas para que este diálogo seja estruturado.

Esta norma promove diferenciais importantes, que irá alterar a forma como o terceiro setor se organiza internamente e a forma como as empresas interagem com o terceiro setor. Os impactos desta norma no terceiro setor serão o tema do nosso próximo artigo.

Reeditado PMI-Agosto/2009

Rafael Nora Tannus é biólogo e Mestre em Ecologia pela USP, especialista em Risco Ambiental pelo programa Unicamp/Prominp/Petrobras. Trabalhou como Pesquisador na Floresta Nacional dos Tapajós e foi pesquisador na University of Arizona dentro do programa NASA/LBA ECO III. Atuou como diretor de desenvolvimento sustentável do projeto Myaura e atualmente é sócio da Agência Verde e da Tamoios Tecnologia.

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