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JULHO 2010

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ENTREVISTA

Conheça um pouco sobre a carreira do Marcos Borges especialista em Seis Sigma e desenvolvimento de software

Autora: Eneida Aparecida de Lucca, M.Sc., Green Belt, PMP

  • Descreva-nos um pouco sobre sua formação e trajetória profissional, bem como sua atual posição no mercado de trabalho.

    Sou engenheiro de computação, mestre e doutor em Ciência da Computação pela UNICAMP. Também tenho MBA em Gestão Empresarial e formação em Seis Sigma. O foco dos meus projetos de pós-graduação foi a formação de profissionais de indústrias em ferramentas Lean, tendo recebido o prêmio de melhor doutorado na área de informática e educação no Brasil em 2004. Em 2009 desenvolvi um pós-doutorado no Departamento de Engenharia Industrial e Gestão da Universidade do Porto (DEIG/FEUP), em Portugal, onde montei um processo para se identificar qual programa de gestão (Seis Sigma, Lean, TQM, etc.) é o mais adequado para uma empresa adotar, dependendo de suas características e da realidade onde está. O resultado deste trabalho gerou um livro “Qualidade e Gestão: hoje e amanhã”, que será lançado no próximo ano.
    Trabalhei na área de desenvolvimento de software por mais de dez anos, começando com programação em vários ambientes e trabalhando por cinco anos como gerentes de projetos e membro da SEPG (software engineering process group) de uma grande empresa na área de software, onde acompanhei todo o processo de implantação CMMI nível 3 e ISO 9000.
    Desde 2005 sou sócio da Auctus Consultoria e Treinamento Empresarial. Nela atuo no apoio ao gerenciamento de projetos e implantando ferramentas como Planejamento Estratégico, Lean e Seis Sigma.
    Desde 2006 sou professor e pesquisador da Faculdade de Tecnologia da UNICAMP. Ainda na UNICAMP, sou coordenador do Laboratório de Informática, Aprendizagem e Gestão e membro do Núcleo de Informática Aplicada à Educação.

  • Você possui experiência no ramo acadêmico e também no meio corporativo. Quais pontos você consideraria desses dois segmentos para que possam ser aplicadas em suas atividades de gestão de projetos?

    Aprendi na área corporativa à necessidade de se cumprir prazos, a prioridade que devemos dar aos clientes, a eterna busca por diminuir custos e otimizar processos e o foco na gestão de pessoas para atingirmos os resultados.
    Acredito que a área acadêmica me ajuda a entender a necessidade de sermos mais criteriosos e cuidadosos com as metodologias, não deixando que “adaptações” desfigurem o que há de essencial.

  • Como professor universitário, você transmite aos seus alunos conhecimentos sobre boas práticas de gestão de projetos para que possam ser aplicadas em condução de projetos acadêmicos? De que forma isso é realizado?

    Sim, essa para mim é uma das minhas obrigações como professoras: levar aos alunos a importância desses conteúdos “práticos” para a carreira deles.
    Ofereço anualmente uma disciplina de Gerenciamento de Projetos para a graduação e o mestrado, e neste ano ela foi uma das mais procuradas na minha faculdade, o que demonstra o interesse dos alunos. Também neste ano organizei a primeira Semana de Informática, Aprendizagem e Gestão, onde profissionais fizeram palestras discutindo questões relacionadas ao gerenciamento de projetos.

    Além disso, pratico o gerenciamento de projetos no dia a dia: meus alunos de iniciação científica e mestrado devem seguir as boas práticas de gestão, desde a primeira fase de suas pesquisas.

  • Hoje você é proprietário da AUCTUS, empresa que atua em gestão de projetos e também com a metodologia Six Sigma. Descreva-nos como as boas práticas do PMBOk® podem ser aplicadas às diversas fases dos projetos six sigma.

    Seis Sigma é um programa de gestão que tem muitas coisas em comum com TQM e Lean, por exemplo, que vieram antes. Sua diferença fundamental é justamente a inspiração que têm em projetos. Seis Sigma não é um conjunto de ferramentas ou uma filosofia: é uma forma extremamente pragmática, objetiva e efetiva de conduzir projetos de melhoria em empresas. Cada melhoria é um projeto, que começa com um charter e termina com uma reunião de encerramento. Tem muita coisa em comum com as boas práticas do PMBok. Mas Seis Sigma não prevê a adoção de várias áreas importantes, como gestão de riscos, de recursos e de mudanças. Acredito que vendo Seis Sigma como um conjunto de processos específicos para melhoria de processos, e usando as boas práticas do PMBok em conjunto, só temos a ganhar.

  • E o inverso: quais ferramentas de Six Sigma podem ser úteis nas principais etapas do gerenciamento de um projeto?

    Seis Sigma fornece todo um arcabouço de ferramentas que pode agregar muito no processo de gerenciamento do portfólio de projetos. Podemos exemplificar com algumas ferramentas usadas por Seis Sigma na seleção e definição de projetos, como o flow-down e a análise Kanno.
    Na parte final dos projetos, o rigor para cálculo do retorno financeiro de um projeto é uma premissa de Seis Sigma que certamente seria positivo se todos os gerentes de projeto adotassem.

  • Com base em sua experiência, é comum as empresas usarem boas práticas de gestão de projetos para obter sucesso em seus projetos de Six Sigma? (e vice-versa?)

    Não, não é. Hoje existem algumas iniciativas na área, mas ainda estão em fase inicial. Uma das dificuldades que vejo para isso é que as áreas que usam mais projetos, como TIC e as áreas administrativas e comerciais das empresas, por exemplo, não são ainda grandes usuárias de Seis Sigma. Por outro lado, minha percepção é que o gerenciamento de projetos ainda é pouco conhecido na grande maioria das áreas industriais, justamente onde Seis Sigma é mais usado.

  • Muito se fala que, para conduzir um projeto, o gerente não precisa, necessariamente, ter conhecimento técnico relativo ao escopo. Você é um profissional do ramo de TI, que presta consultoria em empresas de diversos segmentos. Como é conduzir um projeto em uma indústria petroquímica, por exemplo, que envolve assuntos técnicos e específicos? Quais seriam as habilidades necessárias para garantir o sucesso do projeto?

    Não concordo totalmente com essa afirmativa. Acredito que é importante ter no time de gerenciamento alguém que tenha pelo menos uma noção básica da área. Eu nunca trabalho sozinho no gerenciamento, sempre trabalho em conjunto com pessoas que conheçam a tecnologia específica e a empresa em questão.
    Além disso, faço questão de entender o projeto, saber seu objetivo, ter uma noção da tecnologia envolvida, ir visitar a fábrica, para que possa falar em uma linguagem próxima aos membros do projeto. Isto é importante para que não seja visto como um burocrata, mas sim como um membro do time.
    Também é essencial para um gerente de projetos saber trabalhar com pessoas, e buscar em toda a energia, motivação e comprometimento. Um gerente de projetos que se limita a construir planos e acompanhar cronogramas não captaram a essência do seu trabalho. É preciso que todos nos vejam como parte da equipe, como pessoas que estão lá para ajudar no sucesso do projeto. Não se pode prescindir de visitar o local onde o projeto está ocorrendo, conversar com os membros enquanto desenvolvendo as atividades: muitas vezes é nestes momentos que se identifica algo que não esteja de acordo com o projeto, podendo-se atuar antes que o risco vire problema.

  • Empresas de menor porte demonstram ter espaço para implantação de boas práticas de gerenciamento de projetos assim como ferramentas de Six Sigma? Comente com base em sua experiência.

    Não tenho a menor dúvida quanto a isso com relação à Gerenciamento de projetos. Mas para Seis Sigma, é importante avaliar-se a adequação da implantação desse programa de melhoria, para que não se gaste muito esforço sem um retorno associado.

  • Que conselho você daria aos profissionais que pretendem iniciar o uso das boas práticas do PMBok® em seus projetos de Six Sigma, assim como aos que pretendem usar as ferramentas de Six Sigma em seus projetos?

    As boas práticas do PMBok® são sempre um conhecimento que agrega. Mas é importante entender-se a essência do PMBok®: esse é um ponto que eu insisto com meus alunos. O PMBok® é claro quando diz que é responsabilidade do gerente de projetos avaliar o que é importante fazer em um projeto. Infelizmente, há consultores que colocam as boas práticas como obrigação, o que “engessa” muito o processo de condução de projeto, sem necessariamente agregar valor.
    Com relação à Seis Sigma, tenho duas sugestões principais:

    1. Avalie antes se a empresa ou área onde será utilizado está preparada para esse tipo de programa. Para Seis Sigma ter sucesso, é importante toda uma adequação cultural e maturidade em qualidade e gestão. Este é o foco do meu livro “Qualidade e Gestão: Hoje e Amanhã”, sobre o qual falei na pergunta 1.
    2. Entenda realmente o que é Seis Sigma. Seis Sigma não é uma caixa de ferramentas, nem uma filosofia. Seis Sigma é um conjunto de passos que precisam ser usados em sequência, meticulosamente, para que se alcance os resultados esperados. Criar adaptações de Seis Sigma que não respeitem a essência deste programa, pode gerar uma frustração muito grande na equipe da empresa ao não levar aos resultados esperados.

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