ENTREVISTA
Alonso Soler
Por Cássia Nascimento J2DA Consulting
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O que é o Caminho de Santiago de Compostela e o que o levou a realizar essa jornada de peregrinação?
O Caminho de Santiago de Compostela, em conjunto com as rotas que levam às cidades de Jerusalém e Roma, é um dos destinos que compõe a tríade mais importante de peregrinação religiosa cristã. O Caminho de Santiago é uma trilha que cruza o continente europeu, descendo pelo sul da França, atravessando os Pirineus, cortando todo o norte da Espanha e culminando na chegada à catedral da cidade de Santiago de Compostela na Galícia.
Depois que Paulo Coelho escreveu o livro “O Diário de Um Mago”, o Caminho de Santiago passou a ser uma meta para religiosos, místicos e, por que não dizer, aventureiros. Um objetivo a ser perseguido por quem enxerga a vida como algo bem mais simples, belo e gratificante do que a complexa e tênue relação financeira entre o homem, o capital e o seu trabalho.
Peregrinar pelo Caminho de Santiago foi para mim a consolidação de mais uma fase no meu projeto de vida. A chegada à cidade de Compostela foi apenas um marco dessa longa jornada.
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E o que isso tem a ver com o gerenciamento de projetos?
Tudo! Parece improvável alguém pretender caminhar por quase 900 Km num país distante – no meu caso, eu optei por realizar o caminho de bicicleta – sem o mínimo de planejamento e controle. Sem dizer que a própria decisão de fazer o caminho foi resultado de uma avaliação de viabilidade financeira, física (de saúde) e técnica (em relação ao preparo da bicicleta e a sua manutenção). Sem um planejamento adequado, realizar o caminho não teria sido possível.
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Conte-nos então sobre a sua experiência no caminho.
Bem, eu fiz o que se convencionou chamar de “Caminho Francês”, afinal, existem diversas trilhas diferentes que chegam à Santiago de Compostela. Saí no dia 03 de Abril da cidade de Saint Jean Pied de Port, no sul da França e cheguei à Santiago no dia 16 de Abril. Foram 14 dias de viagem e um total exato de 843 Km, o que dá uma média de 60 Km por dia. Passei por lugares incríveis – pequenos pueblos repletos de história e lendas místicas. Pedalei para escalar cadeias altas de montanhas e experimentei temperaturas e sensação térmica bem abaixo de zero em diversos trechos. Além disso, experimentei ainda a solidão e a vida de um peregrino. Comi pouco, dormi em saco de dormir (às vezes no chão), tomei alguns banhos frios e senti algumas dores (não foram tantas!). Ou seja, vivenciei a vida peregrina em sua plenitude, o que me ajudou a conhecer um pouco mais de mim mesmo.
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E como foi a evolução de seu plano de projeto para realização do caminho. Você diria que ele funcionou a contento?
Eu comecei a me preparar para fazer o caminho há mais de um ano. Em princípio a data da viagem seria Setembro de 2008. Depois, a correria da vida de consultor me levou a adiar para Abril de 2009.
Li muito sobre o caminho - a história, a cultura dos povos com quem teria contato, as lendas, mitos e curiosidades que abrilhantam a jornada. Conversei com peregrinos que fizeram o caminho antes, tentando tirar proveito de suas experiências anteriores. Levantei temperaturas históricas da região. Comprei roupas adequadas. Preparei-me fisicamente, durante 12 meses, período em que perdi 12 Kg. Verifiquei se a bicicleta suportaria a viagem longa e desgastante, se eu estava apto para fazer reparos rápidos nela, usando o mínimo de peças de manutenção – afinal, o peso dos alforjes tinha que ser minimizado. Em suma, eu realmente me preparei de forma adequada. Para não deixar de ser cartesiano, elaborei uma EAP, um cronograma, um orçamento de custos, uma análise de riscos etc. Elaborei um plano de projetos que seguia de forma bastante adequada os princípios do PMI-PMBOK®.
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Ou seja, tudo foi pensado e consolidado no plano?
Sim, eu diria que fiz um plano realmente bem completo e adequado. Confesso, entretanto, que no início deste ano eu tive a intenção de desistir. A crise econômica mundial, a diminuição no volume de meus serviços contratados me fez repensar se valia ou não a pena seguir o projeto. Mas, concluí logo depois que a minha presença no escritório não mudaria muito a situação. Decidi então encarar o projeto de vida, independente das condições da economia. Hoje tenho certeza absoluta que agi certo. Faria tudo de novo. Penso como seria meu arrependimento hoje se tivesse desistido.
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Então, durante o trajeto tudo deu certo? O plano de projeto foi seguido à risca?
Não. Absolutamente! Eu já sabia, e pude vivenciar mais uma vez, que qualquer plano de projeto, por mais adequado que pareça, ainda foi feito baseado em premissas de futuro. E tais premissas podem mudar ao longo da execução. Por exemplo, eu tinha planejado cada um dos trechos diários. Sabia de onde partiria e onde deveria chegar a cada dia. Estimei o tempo de pedal de cada dia, mas a realidade teimava contestar minhas premissas e o meu plano foi colocado à prova. Houve dias em que encontrei gelo na trilha, o que me obrigou a pedalar um tanto a mais para desviar e voltar à rota original e atrasou minha chegada ao meu destino. O vento foi outro fator inesperado e não planejado, era forte e gelado, o que me fez aumentar demasiadamente o esforço físico. Em alguns dias tive que parar antes do planejado. Em outros momentos, o relevo plano e o vento a favor me permitiram chegar mais cedo ao destino e optar por seguir além. Ou seja, meu aprendizado maior é o de que qualquer plano de projeto serve para viabilizar a execução, mas ele não deve ser visto como uma determinação precisa do que se encontrará na prática, durante a execução do projeto.
Terminei a jornada um dia antes do prazo esperado e com um gasto bem menor. Com todos os atropelos e condições inesperadas consegui levar o projeto a um resultado visivelmente satisfatório. Que bom se todos os projetos terminassem assim.
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Você considera que esta experiência poderá ser útil na sua atividade de professor e consultor? De que maneira você pretende aplicar essa vivência no ambiente gerenciamento de projetos?
A experiência foi muito rica em termos do autoconhecimento. Mas no que tange ao gerenciamento de projetos e na minha vida profissional, consegui fazer diversas analogias ao dia-a-dia de um projeto, por exemplo, estive integralmente envolvido às condições de riscos do trajeto, seus impactos e conseqüências. Tive que tomar decisões não previstas no plano, a todo o momento, devido a novos riscos. Pude avaliar o efeito da aplicação de mais recursos (esforço de pedal) do que o planejado. Pude controlar meu orçamento de custos e tomar decisões de contenção de gastos sem que isso implicasse no comprometimento de minha condição física – afinal, com frio e em atividade física, eu precisava comer bem. Pude até vivenciar, a condição de Síndrome de Parkinson - um dia eu decidi parar num pueblo que constava de meu plano, ainda que estivesse cedo e eu não me sentisse tão cansado – apenas para cumprir o cronograma programado. Sem contar o lado comportamental. Estar sozinho durante horas te leva a repensar seu modo de agir em situações adversas. Pude fazer uma retrospectiva de minha vida profissional e rever algumas atitudes. Tenho certeza de que o caminho contribuiu para o meu desenvolvimento pessoal e, conseqüentemente, profissional.
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Você faria o Caminho de Santiago novamente?
É claro que sim! Depois de ter passado pela experiência e vivenciado tantas coisas boas, qualquer pessoa gostaria de voltar lá. Quem sabe ao ler está entrevista, algum leitor se interesse em reunir um grupo de amigos para juntos fazermos o caminho? O ano de 2010 é considerado um ano especial para o Caminho de Santiago, provavelmente muita gente vai estar lá.
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