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AGOSTO 2008

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ENTREVISTA

Conquistando águas estrangeiras

Romildo Votto (romildo.votto@gmail.com) é formado em Engenharia Mecânica pelo Mackenzie, pós-graduado em Gestão de Projetos pela Fundação Vanzolini da USP Universidade de São Paulo e certificado PMP pelo PMI.

Com trinta anos, Romildo é brasileiro e mora em Adelaide na Austrália. Trabalha como Consultor em Gestão de Projetos para a multinacional Turner & Townsend e também é Diretor de Comunicação e Marketing do capítulo PMI Adelaide South Australia (PMI-SA).

Em maio deste ano Romildo veio passar férias no Brasil e não poderia deixar de visitar seus amigos e colegas do PMI São Paulo, no qual já foi Coordenador do GET Grupo de Estudos Técnicos de Engenharia e Construção.

Veja a seguir a história de vida de Romildo, que conta como conquistou e tem conquistado todos os seus sonhos do outro lado do planeta.

  • Como você começou seu trajeto na Austrália?
    Eu e minha esposa decidimos passar um tempo no exterior para aperfeiçoar nosso inglês e ver quais oportunidades conseguiríamos. Em dezembro de 2005 fomos para Adelaide como estudantes. Alguns meses depois, aconteceu algo que mudou a nossa vida: um dos meus amigos no Brasil me disse que estava imigrando para a Austrália com um visto de trabalho. Era o que precisávamos! Foquei-me nisso e mudei o curso da nossa história.

  • Mas como você imigraria?
    Na Austrália eles têm um processo de imigração chamado "Skilled Migration", que é um visto permanente, como o green card, que se consegue devido às qualificações e habilidades profissionais. No meu caso engenharia e gestão de projetos. É um processo longo e complicado, que analisa o seu inglês - através da prova IELTS, testando quatro habilidades de comunicação em inglês: redação, conversação, interpretação oral e leitura; experiências profissionais; tempo de trabalho; e reconhecimento pelo Engineers Australia (semelhante ao CREA no Brasil).
    E eu fiz disso um projeto. Trabalhei sobre um apertado cronograma de fevereiro a maio 2006. Com o objetivo definido, a primeira coisa que fiz foi determinar os milestones (ou marcos) importantes. E os milestones eram todos "go / no-go", ou acontece ou não acontece. A cada milestone que fosse cumprido eu iria para uma nova fase no projeto e se não fossem cumpridos meu projeto acabaria ali.
    O primeiro milestone foi a prova de inglês, o IELTS. Liguei na Universidade de Adelaide e a primeira data que tinha disponível era no dia 25 de maio, mas não dava porque 24 de maio era minha data limite. Procurei em Melbourne, a mesma coisa. Achei em Brisbane, que era três horas de vôo de Adelaide. Era meados de fevereiro e a prova seria no começo de abril. Marquei essa prova, comprei minha passagem, voltei na minha escola e disse: Tenho minha prova IELTS marcada em abril, e vou passar. Foquei nessa parte, o resto não adiantaria nada se eu não tivesse passado na prova. Estudei muito, fiz a prova e passei!
    O segundo milestone era a documentação. Eu precisava reconhecer o meu diploma de Engenharia na Austrália, para isso foi preciso elaborar um relatório para o Engineers Australia. Também precisei fazer tradução juramentada da minha documentação, fiz no Brasil com a ajuda da minha mãe, mas demorou duas ou três semanas para chegar. Mas essa etapa também foi cumprida com sucesso. Finalmente, dei entrada com a documentação para o visto exatamente no dia previsto no cronograma. Um projeto bem sucedido!
    Mas depois que dei entrada nos papéis liguei na imigração e descobri que o prazo de análise do visto era de doze a dezoito meses. Essa informação não estava clara em nenhum momento. E assumo que errei na definição do objetivo do projeto, me focando na data de entrada do visto e não no visto em si. Como eu não tinha um visto para esperar na Austrália todo esse tempo, a solução era voltar ao Brasil. Eu estava com a sensação de que nadei, nadei e morri na praia.

  • Mas você não voltou, voltou?
    Não! Enviei meu currículo para uma empresa de recrutamento que um amigo me indicou. Pouco tempo depois me ligaram marcando uma entrevista. Em seguida marcamos a entrevista no cliente, a ElectraNet, uma empresa de transmissão de energia semelhante à Eletropaulo em São Paulo, onde trabalhei por quase dois anos.
    Dois documentos que fizeram muita diferença na entrevista foram: O meu diploma já reconhecido pelo Engineers Australia e a minha certificação PMP. Eles gostaram muito das minhas qualificações, do meu currículo e de mim e estavam dispostos a me contratar, porém expliquei que meu visto ainda não saíra. E eles falaram: "tudo bem, nós lhe patrocinaremos até o seu visto sair". Consegui o emprego e o visto patrocinado para ficar no país.

  • E como é esse visto patrocinado?
    Quando uma empresa quer trazer um estrangeiro para trabalhar na Austrália, ela pode dar entrada em um visto como patrocinadora (sponsor). A pessoa fica vinculada à empresa, que garante o visto enquanto ela estiver trabalhando para eles. As pessoas no Brasil sempre me perguntam "então é fácil para conseguir um visto patrocinado?". Sim e não. As minhas vantagens eram que eu já estava na Austrália, que eu tenho uma profissão que está em alta e que eu já tinha um inglês muito bom.
    A minha dica para uma pessoa que quer imigrar para outro país é: Vá com uma qualificação reconhecida internacionalmente e com um inglês muito bom na sua área de atuação. Tem muita gente que fala inglês muito bem, mas não sabe falar o inglês da profissão. O Guia PMBOK, neste caso, é muito interessante pois contém todos os jargões de gestão de projetos: budget, schedule, cash flow, procurement, risk analysis, earned value, etc. A certificação PMP ajuda muito na profissão de gestão de projetos pois a língua utilizada é a mesma mundialmente. Eu consigo conversar com qualquer pessoa no mundo sobre gestão de projetos porque estudei para a certificação PMP e conheço o jargão.

  • E como é a comunidade do PMI na Austrália? Como você chegou a ser Diretor de Comunicação e Marketing no capítulo de Adelaide?
    Acho que a busca por uma comunidade onde você possa se identificar com os seus é uma coisa muito normal. Como em religião, se você é católico, judeu ou maçom, você pode encontrar a sua comunidade em qualquer lugar do mundo. Eu era uma pessoa muito ativa no PMI São Paulo. Fiz muitos trabalhos voluntários e era coordenador do GET Engenharia. Desde quando cheguei à Austrália, já me tornei membro ativo do capítulo PMI-SA. Para minha surpresa este era um capítulo extremamente pequeno que tinha menos de 150 membros e até hoje não tem um escritório físico.
    Isso porque na Austrália o AIPM (Australian Institute of Project Management) é maior e mais reconhecido que o PMI e eles também tem uma certificação, chamada RegPM. Entretanto o PMI é muito bem reconhecido. Inclusive no AIPM eles usam o Guia PMBOK como corpo de conhecimento.
    Enfim, comecei a freqüentar as reuniões mensais do PMI-SA e até cheguei a fazer uma apresentação para os diretores sobre o que nós fazíamos no PMI São Paulo, como os GETs no Yahoo Groups e o nosso happy hour - aliás quero aproveitar e deixar registrado aqui que fui eu que inventei o nome "Happy Hour Maturity Model"!

  • Ah, então foi você?
    Isso mesmo. Em um dos primeiros happy hours do PMI, nós estávamos conversando sobre modelos de maturidade e eu acho que naquela época fazia pouco tempo que o PMI tinha lançado ou estava para lançar o OPM3. Portanto nessa época estávamos discutindo bastante sobre modelos de maturidade em gestão de projetos. Daí na brincadeira veio a idéia do Happy Hour Maturity Model, já a sigla H2M2 foi criada por outra pessoa que estava lá.!

  • E depois dessa reunião com os diretores você se tornou voluntário do PMI Adelaide?
    O presidente falou para nos encontrarmos e me fez a proposta para desenvolver o website do capítulo. Também disse que em breve teriam eleição para a diretoria e que gostaria que eu fizesse parte. Aceitei!

  • O que você recomenda, para quem está hoje investindo na carreira de gestão de projetos e quer alcançar um nível internacional?
    A primeira coisa é ética. Na nossa carreira, a posição do gestor de projetos tem que ser extremamente ética. Em segundo lugar, depois de uma qualificação, é preciso ter uma boa experiência de trabalho na sua área de atuação no Brasil. Não adianta ser um recém formado e querer buscar o mundo lá fora. Na área de gestão de projetos experiência conta. E óbvio, o inglês fluente, que é fundamental.

  • O que você vê de bom em trabalhar no exterior?
    É muito interessante ver quebra de paradigmas. Tem coisas que fazemos naturalmente no Brasil e que não vemos acontecendo da mesma maneira no exterior, não que um seja certo e o outro errado, isto acontece devido às diferenças de cultura, de clima e de língua. É preciso aprender a lidar com isso, pois nada é uma verdade absoluta. Também, o que eu acho muito interessante, é que como um estrangeiro na empresa, você pode ver tudo com outros olhos.
    O brasileiro tem muito a mostrar. A nossa maneira de trabalhar, de se re-inventar, de demonstrar nosso trabalho para os clientes, a qualidade dos relatórios, o nível de controle nos projetos, é de impressionar.

  • E quanto a você, o que tem de desafios pela frente tanto no capítulo do PMI-SA quanto na sua vida profissional?
    No capítulo realmente eu acho que o grande desafio será com recursos financeiros e humanos muito limitados, desenvolver tudo o que queremos. Minha tarefa é desenvolver o website e e-news, visando a promoção do PMI-SA e fazendo com que nos tornermos o ponto de referência de gestão de projeto em Adelaide e na Austrália.
    Profissionalmente, recentemente recebi uma proposta muito interessante. Estou trabalhando como Consultor em Gestão de Projetos para uma consultoria chamada Turner & Townsend. A T&T é uma empresa multinacional, presente em 57 países. Ela chegou a Adelaide há pouco tempo então estamos construindo um time e desenvolvendo novos clientes. Eu sou o primeiro contratado no setor de mineração, óleo, gás e energia do escritório de Adelaide. Meu novo desafio então é minha dupla função que se resume em desenvolver novos negócios e prestar consultoria aos clientes.

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