ENTREVISTA
Conquistando águas estrangeiras

Romildo Votto (romildo.votto@gmail.com)
é formado em Engenharia Mecânica pelo Mackenzie, pós-graduado em Gestão de
Projetos pela Fundação Vanzolini da USP Universidade de São Paulo e certificado
PMP pelo PMI.
Com trinta anos, Romildo é brasileiro e mora em Adelaide na Austrália.
Trabalha como Consultor em Gestão de Projetos para a multinacional Turner &
Townsend e também é Diretor de Comunicação e Marketing do capítulo PMI Adelaide
South Australia (PMI-SA).
Em maio deste ano Romildo veio passar férias no Brasil e não poderia deixar de
visitar seus amigos e colegas do PMI São Paulo, no qual já foi Coordenador do
GET Grupo de Estudos Técnicos de Engenharia e Construção.
Veja a seguir a história de vida de Romildo, que conta como conquistou e tem
conquistado todos os seus sonhos do outro lado do planeta.
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Como você começou seu trajeto na Austrália?
Eu e minha esposa decidimos passar um tempo no exterior para aperfeiçoar nosso
inglês e ver quais oportunidades conseguiríamos. Em dezembro de 2005 fomos para
Adelaide como estudantes. Alguns meses depois, aconteceu algo que mudou a nossa
vida: um dos meus amigos no Brasil me disse que estava imigrando para a
Austrália com um visto de trabalho. Era o que precisávamos! Foquei-me nisso e
mudei o curso da nossa história.
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Mas como você imigraria?
Na Austrália eles têm um processo de imigração chamado "Skilled Migration", que
é um visto permanente, como o green card, que se consegue devido às
qualificações e habilidades profissionais. No meu caso engenharia e gestão de
projetos. É um processo longo e complicado, que analisa o seu inglês - através
da prova IELTS, testando quatro habilidades de comunicação em inglês: redação,
conversação, interpretação oral e leitura; experiências profissionais; tempo de
trabalho; e reconhecimento pelo Engineers Australia (semelhante ao CREA no
Brasil).
E eu fiz disso um projeto. Trabalhei sobre um apertado cronograma de fevereiro
a maio 2006. Com o objetivo definido, a primeira coisa que fiz foi determinar
os milestones (ou marcos) importantes. E os milestones eram todos "go / no-go",
ou acontece ou não acontece. A cada milestone que fosse cumprido eu iria para
uma nova fase no projeto e se não fossem cumpridos meu projeto acabaria ali.
O primeiro milestone foi a prova de inglês, o IELTS. Liguei na Universidade de
Adelaide e a primeira data que tinha disponível era no dia 25 de maio, mas não
dava porque 24 de maio era minha data limite. Procurei em Melbourne, a mesma
coisa. Achei em Brisbane, que era três horas de vôo de Adelaide. Era meados de
fevereiro e a prova seria no começo de abril. Marquei essa prova, comprei minha
passagem, voltei na minha escola e disse: Tenho minha prova IELTS marcada em
abril, e vou passar. Foquei nessa parte, o resto não adiantaria nada se eu não
tivesse passado na prova. Estudei muito, fiz a prova e passei!
O segundo milestone era a documentação. Eu precisava reconhecer o meu diploma
de Engenharia na Austrália, para isso foi preciso elaborar um relatório para o
Engineers Australia. Também precisei fazer tradução juramentada da minha
documentação, fiz no Brasil com a ajuda da minha mãe, mas demorou duas ou três
semanas para chegar. Mas essa etapa também foi cumprida com sucesso.
Finalmente, dei entrada com a documentação para o visto exatamente no dia
previsto no cronograma. Um projeto bem sucedido!
Mas depois que dei entrada nos papéis liguei na imigração e descobri que o
prazo de análise do visto era de doze a dezoito meses. Essa informação não
estava clara em nenhum momento. E assumo que errei na definição do objetivo do
projeto, me focando na data de entrada do visto e não no visto em si. Como eu
não tinha um visto para esperar na Austrália todo esse tempo, a solução era
voltar ao Brasil. Eu estava com a sensação de que nadei, nadei e morri na
praia.
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Mas você não voltou, voltou?
Não! Enviei meu currículo para uma empresa de recrutamento que um amigo me
indicou. Pouco tempo depois me ligaram marcando uma entrevista. Em seguida
marcamos a entrevista no cliente, a ElectraNet, uma empresa de transmissão de
energia semelhante à Eletropaulo em São Paulo, onde trabalhei por quase dois
anos.
Dois documentos que fizeram muita diferença na entrevista foram: O meu diploma
já reconhecido pelo Engineers Australia e a minha certificação PMP. Eles
gostaram muito das minhas qualificações, do meu currículo e de mim e estavam
dispostos a me contratar, porém expliquei que meu visto ainda não saíra. E eles
falaram: "tudo bem, nós lhe patrocinaremos até o seu visto sair". Consegui o
emprego e o visto patrocinado para ficar no país.
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E como é esse visto patrocinado?
Quando uma empresa quer trazer um estrangeiro para trabalhar na Austrália, ela
pode dar entrada em um visto como patrocinadora (sponsor). A pessoa fica
vinculada à empresa, que garante o visto enquanto ela estiver trabalhando para
eles. As pessoas no Brasil sempre me perguntam "então é fácil para conseguir um
visto patrocinado?". Sim e não. As minhas vantagens eram que eu já estava na
Austrália, que eu tenho uma profissão que está em alta e que eu já tinha um
inglês muito bom.
A minha dica para uma pessoa que quer imigrar para outro país é: Vá com uma
qualificação reconhecida internacionalmente e com um inglês muito bom na sua
área de atuação. Tem muita gente que fala inglês muito bem, mas não sabe falar
o inglês da profissão. O Guia PMBOK, neste caso, é muito interessante pois
contém todos os jargões de gestão de projetos: budget, schedule, cash flow,
procurement, risk analysis, earned value, etc. A certificação PMP ajuda muito
na profissão de gestão de projetos pois a língua utilizada é a mesma
mundialmente. Eu consigo conversar com qualquer pessoa no mundo sobre gestão de
projetos porque estudei para a certificação PMP e conheço o jargão.
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E como é a comunidade do PMI na Austrália? Como você chegou a ser Diretor
de Comunicação e Marketing no capítulo de Adelaide?
Acho que a busca por uma comunidade onde você possa se identificar com os seus
é uma coisa muito normal. Como em religião, se você é católico, judeu ou maçom,
você pode encontrar a sua comunidade em qualquer lugar do mundo. Eu era uma
pessoa muito ativa no PMI São Paulo. Fiz muitos trabalhos voluntários e era
coordenador do GET Engenharia. Desde quando cheguei à Austrália, já me tornei
membro ativo do capítulo PMI-SA. Para minha surpresa este era um capítulo
extremamente pequeno que tinha menos de 150 membros e até hoje não tem um
escritório físico.
Isso porque na Austrália o AIPM (Australian Institute of Project Management) é
maior e mais reconhecido que o PMI e eles também tem uma certificação, chamada
RegPM. Entretanto o PMI é muito bem reconhecido. Inclusive no AIPM eles usam o
Guia PMBOK como corpo de conhecimento.
Enfim, comecei a freqüentar as reuniões mensais do PMI-SA e até cheguei a fazer
uma apresentação para os diretores sobre o que nós fazíamos no PMI São Paulo,
como os GETs no Yahoo Groups e o nosso happy hour - aliás quero aproveitar e
deixar registrado aqui que fui eu que inventei o nome "Happy Hour Maturity
Model"!
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Ah, então foi você?
Isso mesmo. Em um dos primeiros happy hours do PMI, nós estávamos conversando
sobre modelos de maturidade e eu acho que naquela época fazia pouco tempo que o
PMI tinha lançado ou estava para lançar o OPM3. Portanto nessa época estávamos
discutindo bastante sobre modelos de maturidade em gestão de projetos. Daí na
brincadeira veio a idéia do Happy Hour Maturity Model, já a sigla H2M2 foi
criada por outra pessoa que estava lá.!
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E depois dessa reunião com os diretores você se tornou voluntário do PMI
Adelaide?
O presidente falou para nos encontrarmos e me fez a proposta para desenvolver o
website do capítulo. Também disse que em breve teriam eleição para a diretoria
e que gostaria que eu fizesse parte. Aceitei!
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O que você recomenda, para quem está hoje investindo na carreira de
gestão de projetos e quer alcançar um nível internacional?
A primeira coisa é ética. Na nossa carreira, a posição do gestor de projetos
tem que ser extremamente ética. Em segundo lugar, depois de uma qualificação, é
preciso ter uma boa experiência de trabalho na sua área de atuação no Brasil.
Não adianta ser um recém formado e querer buscar o mundo lá fora. Na área de
gestão de projetos experiência conta. E óbvio, o inglês fluente, que é
fundamental.
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O que você vê de bom em trabalhar no exterior?
É muito interessante ver quebra de paradigmas. Tem coisas que fazemos
naturalmente no Brasil e que não vemos acontecendo da mesma maneira no
exterior, não que um seja certo e o outro errado, isto acontece devido às
diferenças de cultura, de clima e de língua. É preciso aprender a lidar com
isso, pois nada é uma verdade absoluta. Também, o que eu acho muito
interessante, é que como um estrangeiro na empresa, você pode ver tudo com
outros olhos.
O brasileiro tem muito a mostrar. A nossa maneira de trabalhar, de se
re-inventar, de demonstrar nosso trabalho para os clientes, a qualidade dos
relatórios, o nível de controle nos projetos, é de impressionar.
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E quanto a você, o que tem de desafios pela frente tanto no capítulo do
PMI-SA quanto na sua vida profissional?
No capítulo realmente eu acho que o grande desafio será com recursos
financeiros e humanos muito limitados, desenvolver tudo o que queremos. Minha
tarefa é desenvolver o website e e-news, visando a promoção do PMI-SA e fazendo
com que nos tornermos o ponto de referência de gestão de projeto em Adelaide e
na Austrália.
Profissionalmente, recentemente recebi uma proposta muito interessante. Estou
trabalhando como Consultor em Gestão de Projetos para uma consultoria chamada
Turner & Townsend. A T&T é uma empresa multinacional, presente em 57
países. Ela chegou a Adelaide há pouco tempo então estamos construindo um time
e desenvolvendo novos clientes. Eu sou o primeiro contratado no setor de
mineração, óleo, gás e energia do escritório de Adelaide. Meu novo desafio
então é minha dupla função que se resume em desenvolver novos negócios e
prestar consultoria aos clientes.
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